REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DE MESTRE DE CAPOEIRA - MESTRE GAVIÃO PROJETO DE LEI N° 2858, DE 2008 (Do Sr. Carlos Zarattini)

Dispõe sobre a regulamentação da atividade de capoeira e dá outras providências.

O Congresso Nacional decreta :

Art. 1º.É livre o exercício da atividade de capoeira em todo território nacional.

Art. 2º. A atividade de capoeirista aplica-se a todas as modalidades em que a capoeira se manifesta, seja como esporte, luta, dança, cultura popular e música.

Art. 3º. A capoeira, em todas as suas modalidades, é declarada bem de natureza imaterial, na forma do art. 216 da Constituição Federal, devendo o Poder Executivo tomar as providências necessárias para proceder ao seu registro e divulgação.

Art. 4º. É livre a atividade de capoeira nas modalidades de esporte, luta, dança, cultura popular e música, devendo ser incentivadas e apoiadas pelas instituições públicas e privadas.

Parágrafo único. A capoeira nas modalidades luta e esporte é considerada como atividade física e desportiva, podendo ser exercida na forma lúdica, amadora e profissional.

Art. 5º. Ficam reconhecidas como profissão as atividades de capoeira nas modalidades luta e esporte.

Parágrafo único. Ficam reconhecidos como Contramestre e mestre os profissionais com dez anos ou mais na profissão.

Art. 6º. É privativo do capoeirista profissional :

I – o desenvolvimento com crianças, jovem e adultos das atividades esportivas e culturais que compõem a prática da capoeira em estabelecimentos de ensino e em academias ;

II – ministrar aulas e treinamento especializado em capoeira para atletas de diferentes esportes, instituições ou academias ;

III – a instrução acerca dos princípios e regras inerentes às modalidades e estilos da capoeira ;

IV – a avaliação e a supervisão dos praticantes de capoeira ;

V – o acompanhamento e a supervisão de práticas desportivas de capoeira e a apresentação de profissionais ;

VI – a elaboração de informes técnicos e científicos nas áreas de atividades físicas e do desporto ligados à capoeira.

Art.7º. Fica a cargo do Poder Executivo a criação dos Conselhos Federal e Regionais dos capoeiras.

Art.8º. As unidades de ensino superior que ministrem cursos de graduação em Educação Física manterão em sua grade curricular a formação em capoeira nas modalidades luta e esporte.

Art.9º. As unidades de ensino fundamental e médio integrarão em sua grade curricular a prática da capoeira nas modalidades de luta, dança, cultura popular e música.

Art.10. Fica instituído o Dia Nacional da capoeira e do Capoeirista a ser comemorado anualmente no dia 12 de setembro.

Art.11. Compete aos órgãos públicos de educação, esporte, cultura e lazer promover atividades que explorem as origens culturais e históricas da capoeira, bem como sua prática nas diversas modalidades referidas nesta lei.

Art. 12. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

JUSTIFICAÇÃO

A capoeira é uma expressão cultural que mistura esporte, luta, dança, cultura popular e brincadeira, desenvolvida por descendentes de escravos africanos trazidos ao brasil, além de representar a resistência dos negros à escravidão.

Poucos se lembram, mas um dia a arte da capoeira já foi considerada criminosa e sua prática banida. Estávamos no início do período republicano e uma das providências do Presidente Marechal Deodoro da Fonseca foi editar um decreto (Decreto-Lei nº 487, de 1890) determinando que todo capoeirista pego em flagrante seria desterrado para a Ilha de Fernando de Noronha. A criminalização durou até 1937, quando, por iniciativa do Presidente Getúlio Vargas, a capoeira foi descriminalizada e reconhecida como esporte autenticamente nacional.

Desde então a capoeira vem crescendo no brasil e se espalhando pelo mundo. Tendo em vista a importância da capoeira como patrimônio de nossa cultura e sua disseminação como esporte, dança, cultura popular, lazer e meio de inserção social, propomos o presente Projeto de Lei como forma de regulamentar e incentivar a capoeira no brasil.

A capoeira é inequivocamente um traço cultural indelével de nossa identidade cultural, expressando-se como arte, ofício e alternativa profissional para muitos brasileiros.

A capoeira tem estrutura bem diferenciada, conseguindo, a um só tempo, manifestar-se como luta, jogo e dança, além de configurar um eficiente sistema de autodefesa genuinamente brasileiro.

O folclorista Francisco Pereira da Silva assevera que :

“Nenhum fato relacionado com a cultura popular brasileira terá suscitado tanto e tão prolongado debate quanto a capoeira. Sua procedência, a origem do nome, as implicações na ordem social determinaram discussões que até tempos recentes incitaram os espíritos. Etimologistas, antropólogos, folcloristas, historiadores, têm participado na pugne literária com os seus pareceres, testemunhos ou palpites. Enquanto isso, ia a polícia ‘contribuindo’ com o argumento velho do chanfalho e pata de cavalaria...”

A ilustre Deputada Alice Portugal, em seu Projeto de Lei nº 1.271, que "Acrescenta parágrafo único ao art. 2º da Lei nº 9.696, de 1º de setembro de 1998", tece profundas e pertinentes ponderações sobre a capoeira, razão pela qual pedimos a devida vênia para incluir aqui parte de sua justificação dessa valiosíssima atividade cultural nacional :

“A capoeira já foi motivo de grande controvérsia entre os estudiosos de sua história, sobretudo no que se refere ao período compreendido entre o seu surgimento – supostamente no século XVII, quando ocorreram os primeiros movimentos escravos de fuga e rebeldia – e o século XIX, quando aparecem os primeiros registros confiáveis, com descrições detalhadas sobre sua prática.

Tem ela uma história acidentada, pontilhada de episódios vexatórios e truculentos. Perseguida desde o começo, no caldeirão que misturou as várias etnias que formam o nosso povo, ganhou fama de má prática, coisa de “malandros”, “vadios”. A perseguição durou até a década de 1930, quando, graças principalmente ao trabalho de mestre Bimba – “Grande mestre da capoeira” – e seus discípulos, inaugurou-se a fase de efetiva sistematização do ensino da capoeira e de seu reconhecimento social, assim como o de todas as outras manifestações culturais de matriz africana.

O nome “capoeira” deu-se em função do seguinte : os Escravos ao fugirem para as matas tinham no seu encalço os famigerados Capitães do Mato, enviados pelos senhores. Os escravos em fuga reagiam e os atacavam, nas clareiras de mato ralo, cujo nome é capoeira, com pés, mãos e cabeças, dando-lhes surras ou até mesmo matando-os. Os que sobreviviam voltavam para os seus patrões indignados. Estes perguntavam : “Cadê os negros ? e a resposta era : “Eles nos pegaram na capoeira”. Referindo-se ao local onde foram vencidos.

A capoeira no meio das matas era praticada como luta mortal. Já nas fazendas, era praticada como brinquedo inofensivo, pois ela estava sendo feita sob os olhares dos Senhores de Engenho. Naquele momento se transformou em dança. Para disfarçarem a luta utilizavam a ginga, a base de qualquer “capoeirista” ; e é dela que saem todos os golpes. Esse disfarce foi fundamental para a sobrevivência dos escravos, pois a capoeira é, principalmente, na sua origem, uma luta de resistência.

A capoeira reúne todos estes componentes originais, o que lhe outorga uma excepcional riqueza artística, melódica e dinâmica ; um enorme potencial evolutivo e finalmente, uma gama intensa de aplicações esportivas, coreográficas, terapêuticas, pedagógicas etc., que abrange desde o simples jogo às franjas das artes marciais e da defesa pessoal.”

Pelo exposto, peço aos nobres pares o apoio necessário para a aprovação da matéria.

CARLOS ZARATTINI

Deputado Federal – PT/SP Postado por Presidente da Federação Riograndense de Capoeira, terça-feira, 26 de outubro de 2010 http://fergscapoeira.blogspot.com/2...

 

 

A idéia para o CapoeiraGens surgiu quando comecei a aprender capoeira. Desde que consigo me lembrar, vivia perguntando ao meu mestre sobre o mestre dele, e sobre o mestre do mestre, e o mestre do mestre do mestre... Tentava com isso conseguir entender a continuidade da capoeira - não no sentido de "tradição cristalizada", mas exatamente no de "mudança constante".

Ora, se o capoeirista X aprendeu do capoeirista Y e do capoeirista Z, certamente X terá algo de Y e de Z em si. Ainda que Y e Z pertençam a escolas, linhagens e linhas de pensamento distintas, eu creio que é humanamente impossível a X "desaprender" tudo que um deles ensinou, em detrimento do outro.

Se X foi aluno de Y, e agora é de Z, ele terá a capoeira de ambos correndo na palma de suas mãos, ainda que inconscientemente. O aprendizado corporal acontece num nível mais profundo, inconsciente - é o famoso "andar de bicicleta"...

Mas estou me perdendo em divagações. A idéia de ter o "mapeamento genealógico" da capoeira ficou entranhada na minha cabeça desde sempre, e começou a brotar quando vi, no espaço da FICA/Salvador, um diagrama mostrando os grandes mestres angoleiros do passado e suas descendências.

A pergunta foi imediata : "E se houvesse uma maneira de gerar esse tipo de diagrama automaticamente, baseado em um banco de dados ?" Assim não seria necessário ficar desenhando e redesenhando no papel...

O CapoeiraGens foi implementado então como um programa de computador para uso pessoal, capaz de fazer os tais diagramas. A informação para compor o banco de dados chega através de conversas, livros, emails, domínio público - e o cadastro vai crescendo.

Agora que o banco de dados já tem um certo volume, decidi publicar a informação - para que ela seja útil para o maior número de pessoas possível. Os dados aqui não pretendem estar absolutamente corretos (exatamente pelo fato de serem obtidos por maneiras diversas, que vão da simples conversa até o registro histórico do livro), e serão alterados sempre que se fizer necessário.

Se você detectar erros nos dados, ou se quiser cadastrar a sua ascendência no banco, por favor entre em contato comigo : Cette adresse e-mail est protégée contre les robots spammeurs. Vous devez activer le JavaScript pour la visualiser..

Axé, Teimosia

                                                                                                                 Atualmente a necessidade da manutenção de nossos valores culturais identitários se constitui emergência social. Em tempos de globalização orientada por uma cultura hegemônica, o consumismo e o individualismo vêm se apresentando como únicas alternativas à falta de referências. Conscientes desses fatos, educadores populares em todo o Brasil empenham-se em desenvolver projetos voltados a uma educação pluriétnica, com vistas à afirmação positiva das diferenças e ao fortalecimento da autoestima dos educandos “afro-índio-euro-brasileiros”.

Entretanto, esses educadores carecem muitas vezes de subsídios para o entendimento consciente dos modos de vida na África pré-colonial, da dimensão histórico-social da escravidão, do papel do afrodescendente nas lutas pela liberdade no Brasil e da função emancipadora da cultura brasileira. Em contrapartida, professores universitários tampouco dominam esses conteúdos, e a eles ainda falta o conhecimento empírico tradicional. Esse fato se dá por uma razão : os próprios educadores foram submetidos, ao longo de sua formação, a um ensino que nega e distorce sua história e restringe o seu acesso a fontes mais profundas de pesquisa e conhecimento.

A Capoeira é uma arte com histórico de lutas pela emancipação negra, o que a legitima como uma manifestação cultural libertária por excelência. Atualmente é reconhecida como ferramenta educativa em ambientes formais e não formais.

O trabalho visa caracterizar a capoeira como prática transformadora na formação de educadores democráticos. Nesse sentido, tendo em vista o ensino socialmente comprometido, consciente e historicamente embasado da Capoeira, recorremos aos estudos de Emília Viotti Costa, Paulo Freire, Ricardo Franklin Ferreira e Muniz Sodré, entre outros, para a fundamentação teórica. As observações pessoais específicas à prática docente são baseadas em minha própria experiência de professor-pesquisador de capoeira.

Concluímos que o ensino tradicional da capoeira, aliado a conhecimentos acadêmicos, tem potencializado seu caráter transformador como prática pedagógica e política e se constitui em poderosa ferramenta educativa para a escola brasileira.

O tema aqui apresentado tem sua relevância afirmada ao levarmos em conta a urgência social da manutenção de nossos valores culturais identitários em práticas educativas que contribuam para o desenvolvimento de cidadãos politicamente conscientes e críticos.

Para que essa meta seja alcançada se faz necessário um trabalho de conscientização para os educadores populares e acadêmicos. A capoeira, para milhares de crianças, jovens e adultos no Brasil, é a primeira e, para muitos, a única fonte de contato com a história do negro apresentada de forma positiva. No entanto, sua transmissão muitas vezes não alcança todo seu potencial social, pois a maior parte dos professores tem um conhecimento restrito, difuso e muitas vezes ingênuo e estereotipado da história do negro no Brasil, na África e na diáspora.

A Capoeira é uma arte com histórico de lutas pela emancipação negra, o que a legitima como uma manifestação cultural libertária por excelência. Enquanto prática educativa, é nítida sua relevância quando observada a abrangência nacional que alcança, a inserção em todos os níveis sociais e sua adoção pelas instituições educativas, da Educação Infantil ao Ensino Superior. Metodologia

Um dos marcos teóricos é a teoria do capital, de Bourdieu, aliado a pesquisas sobre o conceito de identidade e o papel da capoeira na construção desta, tanto no campo individual quanto na formação de uma identidade nacional. Objetivos

* Apresentar o fenômeno da capoeira como prática transformadora, contribuindo para o fortalecimento da autoestima do praticante a partir da perspectiva de pertencimento e domínio de uma arte ligada à ancestralidade africana, à identidade nacional e valorizada pela comunidade internacional. * Embasar a prática dos educadores culturais e universitários com conhecimentos acadêmicos atuais, com vistas a torná-la mais eficaz, apta a cumprir com sua função social. * Demonstrar como a Capoeira pode ser uma alternativa de vida para o afrodescendente, política, financeira e culturalmente falando, dotando o praticante de capital cultural, simbólico e econômico.

Teoria do capital

A teoria do capital, de Bourdieu, permite tecer relações analíticas com a capoeira. Conforme o pensamento de Bourdieu, o poder simbólico é

todo o poder que consegue impor significações e impô-las como legítimas. Os símbolos afirmam-se, assim, como os instrumentos por excelência de integração social. Através da distribuição das diversas formas de capital – no caso da cultura, o capital simbólico – os agentes participantes em cada campo são munidos com as capacidades adequadas ao desempenho das funções e à prática das lutas que o atravessam (Bourdieu apud Correia, 2002, p.18).

A capoeira pode proporcionar aos praticantes tanto a consciência política de seu conhecimento (capital cultural), quanto o respeito da sociedade (capital simbólico) e até a possibilidade de mobilidade social (capital econômico).

Capital simbólico – Conforme o praticante se insere no meio da capoeira, uma mudança importante se processa em seu interior ; ele se sente detentor de um capital simbólico. Esse poder se reflete em aumento da autoestima e potencializa o poder transformador desse agente, que geralmente procura passar seus conhecimentos e experiências adiante. “Normalmente, os padrões culturais elaborados e transmitidos socialmente, por intermédio dos processos simbólicos, não só se referem ao indivíduo como também ‘aos demais’, que compartilham da existência de padrões comuns” (Machado, 2004, on line).

Capital cultural – A despeito de ganhar ou não dinheiro, a capoeira retorna em benefício intangível para o indivíduo e sua coletividade. Howell (2004), a respeito de um mestre de capoeira conhecido por ‘Russo’ diz : “Russo, apesar de pobre, é um “intelectual orgânico” respeitado pela coletividade. Já foi à Europa e aos EUA como convidado de honra. Sua formação foi puramente cultural e é um exemplo do potencial sucesso da educação cultural preconizada por Paulo Freire” (p. 21).

É notável como muitos intelectuais brasileiros têm se debruçado sobre a capoeira. Muniz Sodré (2002), discorrendo sobre Mestre Bimba, um dos grandes capoeiristas (ou capoeiras, como também são chamados) do passado, reconhecido post-mortem como doutor honoris causa, afirma : “embora longe do mundo das letras, era uma das figuras mais cultas que já conheci.” E continua, com seu conceito de cultura :

Numerosas culturas tradicionais são basicamente simbólicas, o que equivale a dizer “corporais”, pois partem do corpo para relacionar-se com o mundo. Tal experiência implica uma cultura. De reconhecimento difícil, certo, porque nos habituamos a ver cultura apenas ali onde o conceito e a letra exercem seu mandato de onipotência. Por isso, temos dificuldade em reconhecer a sabedoria do analfabeto ou do pobre, cegos para a evidência de que culto ou sábio (e não erudito letrado) é aquele que produz saber a partir de sua precariedade no mundo (Sodré, 2002, p.68)

Capital econômico – o capoeira tira seu sustento fazendo shows, tocando em bandas, dando aulas, palestras, construindo instrumentos de percussão, escrevendo livros, gravando discos, preparando fisicamente atores de teatro ou cinema. Há uma infinidade de capoeiristas tirando seu sustento da própria arte, no Brasil e no exterior. Vários deles são homens negros sem formação universitária, contudo são respeitados e chamados de ‘mestre’ por alunos de diversas classes sociais, muitos doutores ou mestres em suas respectivas profissões. Pessoas sem instrução acadêmica, discriminadas em sua maioria pela cor da pele e condição social, passam a ser requisitadas para participar de inúmeros eventos, nacionais e internacionais. A construção da identidade

Buscaremos agora analisar como a capoeira atua na identidade individual e nacional. Para fins didáticos, iremos separar a identidade individual da nacional, sem pretender, no entanto, dicotomizar o indivíduo do social. Machado afirma que :

a noção de identidade foi das mais expressivas conquistas conceptuais das ciências. O seu estudo situa-se no domínio interdisciplinar que concerne a Antropologia, Sociologia, Biologia, Psicologia e Psicanálise. Trata-se de formas de representação individual e coletiva, adquirindo sentido primacial em contextos históricos e sociais definidos, especialmente quando se impõe a alteridade articulada com a cultura e a ideologia. Em última instância, a identidade consiste num fenômeno cultural, ideológico e político. Na realidade, inexiste a noção de identidade fora da estrutura sociocultural. A cultura é um dos fatores determinantes que predispõem o indivíduo à aquisição da identidade, seja social, ideológica ou mesmo política (Machado, 2004, on line)

Falaremos aqui de identidade como um processo dinâmico em torno do qual o indivíduo se referencia, constrói a si e a seu mundo. Para a criança negra, é fundamental a noção de pertencimento em um grupo social em que se veja positivamente afirmada. A escola e a educação formal não têm dado conta de suprir esta necessidade, mantendo o status quo e perpetuando a doença psicológica que é o sentimento de inferioridade. Crianças que não se veem representadas positivamente tendem a criar uma identidade baseada em valores estigmatizados, impossibilitando, dessa forma,

alterar situações de discriminação por meio de atitudes afirmativas quanto as especificidades raciais. (…) A identidade da pessoa negra traz do passado a negação da tradição africana, a condição de escravo e o estigma de ser um objeto de uso como instrumento de trabalho. A cor de pele e as características fenotípicas acabam operando como referências que associam de forma inseparável raça e condição social, o que leva ao afrodescendente a introjeção de um julgamento de inferioridade, não somente quanto ao aspecto racial, mas também em relação às condições socioeconômicas, implicando o favorecimento de uma concentração racial de renda, de prestígio social e de poder por parte do grupo dominante (Souza apud Ferreira, 2000, p. 41-42).

A capoeira, no campo da educação, é rica em símbolos e exemplos positivos. Abundam mestres e professores, afrodescendentes ou não, que julgam primordial o enriquecimento da autoestima das crianças negras por meio do contato com sua herança cultural. Este contato pode favorecer uma tomada de consciência e a mudança de postura por parte do educando, transformando-o em protagonista ativo de sua própria história. Identidade individual : pertencimento histórico e pertencimento social

Há na capoeira uma interação, em mesmo nível, de pessoas das mais diversas etnias, nacionalidades, religiões, idades e níveis sociais. Muitas rodas (especialmente as de rua) são encontros ecumênicos, multiétnicos e pluriculturais, de pessoas em busca de integração. Como afirma Sodré (op. cit.) : “No Brasil, a pedagogia oficial ainda não se deu conta inteiramente das possibilidades de aproveitamento educacional desse jogo para a formação de jovens, cada vez mais moldados pela cultura do individualismo e do isolamento” (p. 81). A capoeira dá ao praticante um senso de pertencimento histórico (ligação com o passado) e social (ligação com o presente). Pertencimento histórico

Guerreiros africanos, negros escravizados enfrentando a polícia, maltas no Rio de Janeiro desestabilizando o Império. Perseguidos pela polícia, enviados às prisões e a ilhas distantes no Atlântico, atuantes na Guerra do Paraguai, na Abolição. Famosos como Madame Satã, Mestre Pastinha. As músicas de capoeira remetem constantemente ao passado, fazendo releituras constantes de fatos e personagens.

Iê ! Tava em casa, sem pensá sem imaginá Mandaram me chamá, para ajudar a vencer, A Guerra do ParaguaiQuem quisé tê piedade, vá na grade da cadeia Muito nego na escura, em volta de uma candeia

Dona Isabel que história é esta, de ter feito a Abolição ? De ser princesa boazinha, que libertou a escravidão ? Abolição se fez com sangue, que inundava este país O negro transformou em luta, cansado de ser infeliz Abolição se fez bem antes, ainda por se fazer agora Com a verdade da favela, não com a mentira da escola.

Segundo Assunção (2005), “uma das razões que fascinam os jovens capoeiristas no mundo todo é a imagem de resistência : contra o senhor de engenho, a polícia, o sistema”. (p. 2). Como fruto desta árvore genealógica, o capoeirista sente-se legítimo herdeiro deste legado, que lhe confere a dimensão histórica de sua existência e de seu papel como agente cultural. Pertencimento social

Atualmente, a maioria dos capoeiristas faz parte de algum grupo. A palavra grupo é constantemente enfatizada e muitas vezes acompanhada do pronome “meu” ou “nosso”. A ideia de posse dá ao praticante a ideia de pertencimento social, pois ele compartilha não só treinamentos mas também uma visão de mundo semelhante à de seus “camaradas de grupo” e à dos demais capoeiristas.

Capra (1982) faz uma análise das relações sistêmicas, afirmando que a “concepção sistêmica vê o mundo em termos de relações e de integração” (p. 260). No caso da capoeira, isto não poderia ser mais verdadeiro. A noção do grupo como família pode passar a falsa impressão de que esses núcleos são pequenos e independentes. Na verdade, podemos falar de uma rede de conexões mundial, interdependente e conectada, uma verdadeira capoeira network. Pessoas de diversos estados e países fazem parte desse imenso grupo. Há capoeira em todos os estados brasileiros, em todos os cinco continentes, nos EUA, em quase toda a Europa (incluindo o Leste Europeu), em Israel e até no Japão. Essas centenas de milhares de capoeiristas se encontram pelo mundo em eventos, simpósios, rodas, trocando experiências e fazendo novas conexões.

As trocas culturais proporcionadas pela capoeira, uma arte de origem afro-brasileira, podem ajudar a criança negra a se ver inserida num contexto amplo, em que suas peculiaridades são aceitas e admiradas. Identidade nacional

Segundo Machado (2004), “após o último pós-guerra, a questão da identidade cultural, acrescida do adjetivo “nacional”, transformou-se em bandeira ideológica dos Estados emergentes. Realmente, a problemática da identidade surge como forma reativa a séculos de privação cultural, apropriação econômica e opressão social” (on line). Procuraremos aqui refletir brevemente sobre o papel da capoeira na construção da identidade nacional.

A capoeira foi utilizada pelo Estado Novo e pelo regime de 68 como um dos símbolos da pátria, com o objetivo de criar uma ideologia nacional. Ao mesmo tempo, contudo, o capoeirista se apropriou desse discurso e se transformou no detentor de um saber que, de desprezado e discriminado, passou a único e precioso. A consequência prática mais interessante dessa apropriação é que o capoeira, ao mesmo tempo que foi e ainda é marginalizado por muitos, paradoxalmente simboliza a própria cultura nacional e é por isso valorizado. Desenvolvimento História da capoeira

A origem da capoeira é incerta. A tradição oral apresenta diversas versões, desde uma suposta ligação direta com determinados rituais africanos, como a “dança da zebra” e o “N’golo”, até uma versão romântica, em que o africano teria desenvolvido a capoeira como luta nas senzalas e a disfarçado em dança para evitar a vigilância dos senhores. As modernas pesquisas levam a desmistificar versões simplistas (Assunção, 2005). É provável que a capoeira tenha se originado num processo de vários séculos, como uma síntese espontânea das diversas formas de cultura corporal trazidas até aqui por diversos povos africanos, influenciada também, em menor escala, pelas culturas indígena e europeia.

Durante o Império e a República Velha, a capoeira sofreu dura repressão. Foi criminalizada no Código Penal de 1890 e somente liberada em 1934. Durante 44 anos, praticar capoeira foi crime. Como bem explica Filgueira (2003) : “Devido à sua origem subalterna, a capoeira foi tratada como prática marginal até ser incorporada pelo Estado Novo como um símbolo de identidade nacional. Vargas, em 1954, apresenta a capoeira como ‘o único esporte verdadeiramente nacional’” (on line).

Sabemos que um dos intuitos do Estado Novo era formar uma “nação brasileira”, hermeneuticamente construída, isto é, baseada em símbolos de fácil identificação por parte da sociedade.

Com o passar do tempo, a cultura negra da capoeira se incorporou à sociedade e passou a influenciar a dança, as artes marciais, o esporte, a música e a literatura. Em contrapartida, sofreu influências e absorveu modificações que a descaracterizaram, transmutando-a em bem de consumo, regrada e institucionalizada. Não era mais o malandro a “vadiar” sua brincadeira na rua, entre a cachaça e a prostituta, e sim o atleta numa academia treinando seu esporte.

Não cabe neste estudo se estender a respeito da história, das tradições, dos estilos ou da institucionalização da capoeira, pois muito já foi escrito sobre esses temas. Cabe, porém, ressaltar que nunca o capoeirista foi passivo diante dessas mudanças. Pelo contrário ; independente de sua predileção pessoal, sempre se aproveitou para delas obter os maiores benefícios, sejam eles em termos de capital simbólico ou econômico.

Atualmente a capoeira divide-se em várias correntes. Muitas vezes os membros de uma tendência clamam para si o mérito de “tradicional”, “contemporânea”, “pura”, “inovadora” etc., mas todas partilham a ideia de uma arte baseada na cultura africana e ferramenta de luta contra a opressão, a marginalização e o racismo. Para o educador cultural de capoeira, é vital o entendimento de que sua função social não se restringe ao campo do movimento, é sua obrigação perpetuar o legado da capoeira na luta contra a discriminação.

O primeiro passo, portanto, é a aceitação da alteridade no próprio meio da capoeira, ou seja, enxergar todos os estilos e tendências como facetas complementares, não-excludentes. Como um caleidoscópio em que diversas cores e formas compõem o quadro final, transformando-se ao sabor do movimento.

O segundo passo é promover ações, atitudes e reflexões intencionais que valorizem a cultura negra, sem, no entanto, cair na armadilha de discriminar as contribuições das demais culturas. A escola brasileira

É urgente a necessidade de discutir abertamente o mito da democracia racial brasileira e valorizar a identidade negra no país. Isso é essencial para que haja o aumento da autoestima das crianças afrodescendentes e para que todos, independentemente de sua origem, possam se beneficiar de uma visão de mundo pluralista, que aceite a alteridade como complemento.

Historicamente, e como não podia deixar de ser, a escola vem reproduzindo a ideologia racial vigente no Brasil, ou seja, o mito da democracia racial, a suposta “índole pacífica” do povo brasileiro, a noção de que o preconceito é social e não racial.

A escola é, por excelência, a instância transformadora que, segundo Paulo Freire, tem a obrigação de se posicionar pela mudança : “se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode” (Freire, 1996, p. 112). Infelizmente, a escola brasileira tem se furtado a esse dever. Privilegiando um enfoque eurocêntrico, incute, nas crianças negras, um sentimento de inferioridade ; e, nas crianças brancas, um sentimento tão nocivo quanto, o de superioridade, naturalizando assim concepções de identidade doentias.

Somente nos últimos anos, iniciativas, muitas ainda tímidas, vêm sendo postas em prática. A escola pública, cujos alunos são majoritariamente afrodescendentes, deve ter preocupação dobrada por propor uma educação pluralista. Não se trata de mudar o foco de uma visão eurocêntrica para uma afrocentrada, mas sim de abrir o leque para a diversidade. Trata-se de reconhecer uma educação afroincludente. Resultados

A Capoeira, como ferramenta educacional, está perfeitamente sintonizada com o moderno debate da interdisciplinaridade. Ela atua nos campos da Arte, da Música, da Educação Física, da História e se encaixa em muitos dos temas transversais.

O educador deve utilizá-la como meio para, a partir dos cânticos, da dança e da luta, estabelecer um elo entre a criança brasileira e sua ancestralidade africana.

Encarada aqui como prática transformadora, a Capoeira deverá atingir metas maiores que as já propaladas habilidades físicas, artísticas e sociais :

* Crianças desde a pré-escola podem ser educadas a viver na diversidade. Debates, pesquisas e, principalmente, atividades lúdicas são meios de o educador alcançar esse objetivo. * O ensino de História pode partir do próprio corpo do educando. Levando em conta que a criança apreende o mundo através da experiência concreta, a capoeira se revela um meio privilegiado de aprendizagem corporal. Essa nova relação de ensino-aprendizagem é quase inexistente na escola brasileira. * A atividade física lúdica, guiada por reflexão e debate com os alunos, revela-se ferramenta inestimável para o educador. * O jogo da capoeira pode servir como mola-mestra para o jogo dramático. A possibilidade de vivenciar dramaticamente e sentir empatia com os personagens interpretados auxilia enormemente na aprendizagem e na capacidade de reflexão.

Jogo dramático

Pode-se dramatizar situações relacionadas à capoeira como :

* A vida nas diversas sociedades africanas. Um aluno pode ser um griot, ancião responsável pela manutenção da cultura oral, que conta histórias dos antepassados e propõe atividades como danças ou lutas que se assemelhem à capoeira. * Simular a chegada do europeu na África, do ponto de vista tanto dos visitantes quanto dos africanos. * Vivenciar, num espaço apertado e quente adaptado para “navio negreiro”, quanto tempo os alunos conseguem permanecer uns amontoados sobre os outros. Discutir como se sentiram e imaginar como seria se tivessem que fazer uma viagem de semanas dessa forma. * Interpretar uma fuga em massa, a construção de um quilombo, personagens heroicos como Zumbi dos Palmares.

Atividades físicas

Jogos como cabra-cega, esconde-esconde e pique-bandeira podem ser adaptadas ao ensino de História por meio da capoeira. Dezenas de outros jogos podem ser adaptados ou criados, dependendo da faixa etária das crianças, do material disponível e da sensibilidade e da imaginação do educador. O ideal é que as crianças participem do processo de criação dos jogos a partir dos conhecimentos adquiridos nas pesquisas e debates. Caçada noturna (cabra-cega)

Objetivo : Apresentar as habilidades dos caçadores africanos em caçadas noturnas.

Desenvolvimento : Relacionando os conhecimentos prévios das crianças sobre animais típicos do continente africano, cada aluno interpretará um, emitindo seu respectivo som. O caçador, vendado, deve-se guiar pelos demais sentidos para pegar sua presa. O animal que for pego troca de lugar com o caçador. Resgate (Esconde-esconde) :

Um aluno é o capitão-do-mato e os outros são os africanos escravizados. O capitão-do-mato deve procurar os fugitivos, e estes, se descobertos, podem se defender com movimentos de capoeira. Porém, se encostados pelo capitão, são devolvidos à fazenda, devendo lá permanecer até serem resgatados pelos companheiros. Quilombo (½ Pique-bandeira)

Objetivo : Interpretar as lutas dos quilombolas de Palmares contra os bandeirantes.

Desenvolvimento : Separam-se dois times em campos opostos : o dos quilombolas e o dos bandeirantes. No campo dos quilombolas haverá um espaço denominado “Casa de Zumbi”. O objetivo dos bandeirantes é invadir esse espaço ; o dos quilombolas é defender Palmares, capturando os invasores. Sempre que um bandeirante for pego ele deve “pagar uma prenda” escolhida pelo grupo. Caso a “Casa de Zumbi” seja invadida, o jogo acaba e invertem-se as posições.

Considerações finais

O educador cultural deve se posicionar dentro da escola e dos demais ambientes educacionais no sentido de cobrar e promover ações com professores e alunos em que se discutam valores e atitudes visando à reformulação do currículo racista, à mudança de atitudes, ao debate aberto em relação a temas tabus como discriminação e preconceito racial.

A omissão pode ser tão nociva quanto a ação racista, pois se posiciona pela reprodução desta. O educador cultural não deve ser apenas um apêndice dentro da escola, dando sua “aulinha de capoeira” e indo embora. Não pode ser neutro em questões como preconceito, seja de etnia, religião, gênero ou classe social.

Sem fazer da sala de aula um espaço de militância político-partidária ou ideológica, o professor deve utilizar sua profissão em prol de uma prática crítica e transformadora.

Referências

ALVEZ, Ramiro. O valor do simbólico. Revista IstoÉ. n. 1.789, 21 de janeiro de 2004.

BRINCADEIRA DE ANGOLA capoeira para crianças no Rio de Janeiro (on line) ; disponível em : www.brincadeiradeangola.com.br, consultado em 20.out.2010.

ASSUNÇÃO, Matthias Röhrig. Capoeira : the history of an afro-brazilian martial art. Routledge : Oxon, 2005.

BRASIL. Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. Brasília : MEC/Sec. Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, 2004.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo : Cultrix, 1982.

CORREIA, João Carlos. O poder simbólico. Jornal de Letras, Artes e Ideias. Portugal, 02/2002.

COSTA, Emília Viotti da. A Abolição. São Paulo : Global, 1988.

FERREIRA, Ricardo Franklin. Afro-descendente – identidade em construção. São Paulo : Pallas, 2000.

FILGUEIRAS, Joanna de Paula. A institucionalização da capoeira. Disponível em cfh.ufsc.br/ nuer/artigos/capoeira.htm. Acesso em 05/2005.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo : Paz e Terra, 1996.

HOWELL, George. Playing in the street : resistance, violence and identity in the suburbs of Rio de Janeiro. Goldsmith’s College London, 2004.

MACHADO, Luiz Toledo. Disponível em www.autor.org.br/debate/tole.... Acesso em 11/2004.

MATTOS, Hebe Maria. A face negra da Abolição. Revista Nossa História, ano 2, n. 19, maio 2005.

NASCIMENTO, Elisa Larkin. A África na escola brasileira. Rio de Janeiro : Sec. Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras, 1993.

SODRÉ, Muniz. Mestre Bimba, corpo de mandinga. Rio de Janeiro : Manati, 2002. www.brincadeiradeangola.com.br – capoeira para crianças no Rio de Janeiro. http://www.educacaopublica.rj.gov.b...

Omri Breda (Ferradura) Contato : Cette adresse e-mail est protégée contre les robots spammeurs. Vous devez activer le JavaScript pour la visualiser. (21) 9273-9360

 

 

André Luiz Lacé Lopes Jornal Fórum Virtual - julho 2005

Defendo, há longas décadas, uma solução sui generis para a institucionalização da Arte Afro-Brasileira da Capoeiragem. Para comprovar minha posição bastará ler os artigos e livros que venho publicando ao longo deste tempo. Defendo, por exemplo, a parceria com os organismos de Educação Física, desde que não haja paternalismo ou monitoramento (normalmente burocrático, tributário e fiscalizatório). Já, inclusive, por várias vezes, embora sem nenhum sucesso, apresentei projetos ao Governo Federal. O artigo de hoje, entretanto, quase que paradoxalmente, é para combater certa classe de "defensores" da total independência da Capoeira. "Defensores" que lembram muito os antigos traficantes de escravos, só que agora, não mais mercando em navios tumbeiros (de "tumba", ou "caixão", onde boa parte dos africanos escravizada morria), mas em aviões tumbeiros. Esses "defensores", verdadeiros sacerdotes de uma espécie de Igreja da Capoeira Sublime e Marqueteira, autoproclamaram-se "donos da verdadeira e única capoeira". Um forte e diabólico esquema de marketing, em grande parte patrocinado pelos cofres públicos do mundo, vem sustentando as mentiras, fantasias e explorações desta "Igreja" de fanático-mercantis. Esses "defensores", essa "igreja", é absolutamente óbvio, não querem fiscalização de nenhuma espécie. Querem total independência para agir, para sentenciar o que é certo e o que é errado dentro do Mundo da Capoeira, para proclamar quem é mestre e quem não é, para definir quem entende de capoeira e quem não entende. De maneira primária, mas sempre com forte marketing e, na maioria das vezes, através de prepostos, tais sacerdotes vão inundando o mundo de "medidas provisórias", que pretendem ser, no fundo, permanentes e imutáveis. Verdadeiros dogmas que vão paralisando a Capoeira no tempo, satisfazendo o ego de uns poucos e rendendo alguns euros e dólares para os mais espertos. Apenas para exemplificar, bastará citar dois "dogmas" para que todos possam avaliar melhor o trabalho que vem sendo feito nos porões desta famigerada "igreja" :

1. "Só entende de Capoeira quem é capoeira, sendo mestre, entenderá ainda mais, desde que tenha, é claro, real experiência de jogo, que tenha realmente ensinado capoeira e entrado em muitas rodas". Afirmação marqueteira que faz grande sucesso entre alguns grupos de internautas, mesmo sendo flagrantemente contraditória e totalmente sem fundamento. Qualquer leigo, qualquer pessoa que veja pela primeira vez uma roda de capoeira, saberá dizer quem está jogando muito bem e quem está jogando muito mal. Além do que, qualquer leigo que, depois de uma roda, converse com alguns mestres presentes, perceberá que cada um tem uma versão diferente do jogo que foi jogado e, sobretudo, da História e dos Fundamentos da Capoeira. De mais a mais, aqui entre nós caro leitor, que ninguém nos ouça, mas boa parte dos mestres de capoeira não apresenta um padrão de maestria acima de qualquer suspeita. O que, aliás, ocorre com qualquer outro segmento sócio-esportivo-cultural. Existem grandes e pequenos advogados, existem grandes e pequenos times de futebol, existem grandes e pequenos sacerdotes, existem grandes e pequenos mestres de capoeira, e por aí vai. Bueno, continuando, se este mesmo "leigo atrevido" tiver a paciência de ler artigos e livros sobre capoeira, perceberá também que, tirando os pesquisadores-amestrados, há uma grande controvérsia sobre cada ponto nuclear deste fascinante fenômeno sócio-cultural-esportivo chamado Capoeiragem. Sempre lembro que o maior cronista de futebol, considerado assim pela própria associação de cronistas esportivos, foi o dramaturgo Nelson Rodrigues. Que não escondia que jamais tinha conseguido fazer, com uma bola de futebol, mais de duas embaixadas. E o Futebol, meus senhores, meio aparentado com a Capoeira, tem também sua História, seus Fundamentos, suas rezas, suas mandingas, suas técnicas e táticas. Resumindo, já está na hora de certos mestres pararem de tentar defender, bisonhamente, que fora da capoeira só pode escrever sobre ela quem elogiar o trabalho da "igreja". Mesmo considerando a manobra atual, ou seja, elogiando, nada lhe será cobrado, ao contrário, "é gênio", "percebe bem as coisas". Será convidado para falar em todos "congressos" e similares promovidos pela "igreja". Não elogiando, entretanto, está morto. A "igreja" mobiliza seus pequenos demônios - moleques de recado - e lhes dá a missão de excomungar o incauto, com todas as armas possíveis. Sem saber que estão excomungando, senão a própria Capoeira, o sempre recomendável exercício (brilhante e sereno) do Contraditório.

2. "Graças à ação da "Igreja" a Capoeira pegou no mundo". Outra bobagem, na velha linha de copiar, usurpar, omitir e fantasiar. E, assim, além de forjar uma versão fantasiosa, faz grave injustiça a um verdadeiro batalhão de soldados, digo, de capoeiras desconhecidos. O Jornal do Capoeira (Internet), no outro dia, republicou interessante crônica, datada de 1929, que mencionava o sucesso capoeirístico de um marinheiro brasileiro na Itália. Muito falta a escrever, ainda, sobre o papel das duas marinhas brasileiras, de Guerra e Mercante, na função de disseminar a Capoeira pelos portos brasileiros e pelos portos do mundo. Muitos funcionários subalternos de embaixadas e de outras representações brasileiras no exterior, inclusive o empresariado caboclo, jogavam sua capoeira e, vez por outra, eram chamados para exibições informais. Alguns chegando a realizar pequenos cursos introdutórios. Pessoalmente, acompanhei alguns casos desses. Carlos Alberto Pettezzoni, Belisquete, aluno de Sinhozinho, em 1957, ensinou capoeira em Miami, fazendo até um pequeno filme documentário. Artur Emídio de Oliveira, muito antes da criação desta pretensiosa "igreja" já corria o mundo, sendo aplaudido de pé pela sua extraordinária capoeira (na maioria das vezes, jogando com o não menos extraordinário Djalma Bandeira). E quanto ao Mestre Canela, do subúrbio do Rio, há mais de 25 anos radicado na Itália, sempre ensinando e fazendo exibições de capoeira ? Sem esgotar, nem de longe, este mote, a nível nacional, o que comentar sobre a capoeira utilitária do paulista-carioca Agenor Sampaio, que a "Igreja" tentou e tenta esconder de todas as formas ? Enfim, defendo, defenderei sempre, que o fenômeno Capoeira é um grande somatório de todos os eventos e mestres que por ela passaram, desde seus primórdios na África. Será um erro fatal tentar dar um corte marqueteiro na História e arbitrar uma nova versão para este tão decantado e encantado fenômeno. Os "dogmas" e as mentiras cristalizadas são muitos, menciono alguns no livro "Capoeiragem no Rio de Janeiro - Sinhozinho e Rudolf Hermanny", mas o marketing e as verbas funcionaram muito bem. Vai daí que, feita a cama - capoeira se alastrando, sendo melhor reconhecida no Brasil e demandada no resto do mundo - a "igreja" deita-se nela e passa a produzir versões fantasiosas e mercantis, normalmente movidas por verbas públicas. Só que o mundo começou a perceber que o produto não era assim tão bom, tampouco era autêntico. Com toda razão, começaram a desconfiar que havia muita coisa "por debaixo do angu". Muitos capoeiras estrangeiros começaram a vir ao Brasil, a beber na fonte, em várias fontes, tomando conhecimento de vários tipos de capoeiras, de vários estilos, de vários metodologias. Perplexos, começaram também a ouvir várias outras versões sobre as origens e os fundamentos da capoeiragem. Vai daí que os sacerdotes-capoeiras não tiveram outra alternativa, senão a de, rapidamente, transformarem-se, também, em "sacerdotes-empresários", passando a acenar com migalhas de dólares e euros para conseguir levar alguns bons mestres, não alinhados, para viagens pelo exterior. Viagens rápidas e monitoradas. São os "uncles-toms" modernos, alguns espertamente conscientes deste papel, outros, não. Tenho uma excelente carta de Mestre Leopoldina deixando claro como foi explorado em sua primeira viagem ao exterior. Muito embora, Leopoldina, tenha sido um dos poucos que tenha conseguido, lá pelas tantas, começar a fazer seus vôos independentes para o exterior. Do corajoso Mestre Russo de Caxias também ouvi depoimentos massacrantes. Os grandes mestres Ezequiel Martins e Lord Bom Cabrito também me deram depoimentos contundentes, que um deles resumiu muito bem na frase :
- Ou fazemos papel de palhaço ou não viajamos mais. Tudo apontado, portanto, relevem a repetição, para minha velha tese do "uncle-tom" na capoeira, numa versão moderna, não mais viajando de navio, relevem a repetição, mas em "aviões tumbeiros". Começo pelo tráfico de capoeiras para o primeiro mundo, pois este vem sendo a maior fonte de exploração dos capooeiras-empresários, mas também internamente, a exploração continua. Manhosamente através de projetos quase sempre patrocinados pelo governo, por partidos políticos ou por candidatos políticos. A maioria dos "projetos de inclusão", por exemplo, são de eficácia social muito discutível. Sendo que alguns parecem já estar merecendo uma CPI. Salta aos olhos, portanto, que esses "defensores" da total liberdade para prática da Capoeira, lutam na realidade para que não haja transparência em seu comércio. Lutam, também, por razões óbvias, para que não haja controle de qualidade na parte técnica e histórica da Capoeira. Arvoram-se em "donos da verdade" definindo quem deve viver e quem deve morrer no mundo da capoeira. Elegem e promovem seus próprios pesquisadores, não por acaso àqueles que entortam a verdade histórica favorecendo versões fantasiosas mais convenientes. Definem, como adiantei acima, quem é mestre e quem não é, também em função de seus interesses mercantis. Comandam uma verdadeira usina de aproveitamento das informações e das idéias dos outros, copiam tudo, ignoram a fonte, assinam em baixo e comercializam o resultado. Utilizam qualquer forma de luta que contribua para manter os privilégios alcançados. Felizmente este quadro está mudando. O próprio Tribunal de Contas da União já andou reprovando algumas contas. A tendência é aumentar o rigor no exame dessas prestações de conta, nos três níveis de governo. Também a nível internacional, as embaixadas estão mais cuidadosas, como cuidadosos também estão os governos locais. Até porque, alguns mestres de capoeira no exterior já utilizaram verbas públicas locais de maneira, digamos, um tanto confusa. Resumindo e terminando, defendo autonomia para a Capoeiragem, mas, definitivamente, por razões bem distintas a essas, defendidas por esses senhores tumbeiros.

No próximo artigo, a bem da justiça, vamos começar a registrar também o lado positivo desta grande novela. Vamos dar início a uma série de artigos sobre os grandes mestres de capoeira da atualidade. Mestres que estão fazendo um excelente trabalho aqui no Brasil e no exterior. Falaremos, também de alguns livros realmente sérios, recentemente publicados, e de alguns CDs que honram os grandes mestres-cantadores e tocadores do passado.

Autor : André Luiz Lacé Lopes

 

Uma vez fiz um pequeno questionário e com um gravador entrevistei meus alunos foi emocionante para eles e para mim isso me incentivou a pesquisar em varias revistas e tirar da minha vivêcia na Arte e fazer este que deve servir para alguns capoeiristas :

1-Nome, apelido e o grupo que o Sr. pertence ?

2-Quando iniciou aonde e com quem ?

3-Qual a sua versão para a origem da Capoeira ?

4-A Capoeira perdeu muito da tradição ou não ?

5-Quais são os principais fundamentos da Capoeira ?

6-Capoeira é jogo e luta, só jogo ou só luta

7-Para ser mestre de Capoeira precisa-se saber oque ?

8-E para ser Mestre de Capoeira Angola ?

9-Um Mestre tem que saber tocar, cantar e jogar bem ou não ?

10-É mais facil ser Mestre hoje ou antigamente ?

11-Temos + de 50 mestres no Estado mas na maioria dos Batizados só se vê 1 ou 2 porque ?

12-O Sr. faz contato com outros Mestres ?

13- O cara só sabe uma duzia de golpes e é chamado de mestre só porque é velho na Capoeira. Esta certo isto ?

14- Quem se destacou na Capoeira Antigamente e Hoje neste Estado ?

15- O Mestre muda de grupo é rebaixado e sobe se ele chegar a MESTRE ele sera BI-MESTRE ?

16- Os antigos não faziam aquecimento para jogar, o Sr. faz ?

17- MESTRANDO, MESTRE,MESTRE EXTRA-OFICIALMENTE, MESTRE EFETIVO. MESTRE HONORARIO, GRÃO-MESTRE e MESTRISSIMO, o Sr. é oque ?

18- O aluno deve testar o Mestre só para provar que é bom ?

19- Logo que o aluno se acha bom sai e forma seu grupo, ele esta certo ?

20- Passar por varios grupos atrapalha ou melhora o aluno ?

21- O Sr. proibe seus alunos de visitarem outros grupos ?

22- Qual sua opinião sobre a rivalidade entre grupos ?

23- A roda é o local certo para acertarem suas diferenças ?

24-Judõ,Karatê ,Jiu-Jitsu e Capoeira ! Qual a melhor luta ?

25- Angola,Regional, sinhozinho, samango,Muzenza, HidroCapoeira, Miudinho, Figth, Capoeira vem mais COISAS por ai ?

26- Roda de rua o Sr. é contra ou a favor ?

Pergunta

27- Tem gente que so quer Capoeira como esporte, lazer, terapia.Vale a pena ensinar essas pessoas ?

Pergunta

28- Como o Sr. define a SUA CAPOEIRA ?

29- Levantar peso ajuda o capoeirista ?

30- Como esa a qualidade da Capoeira neste Estado ?

31- Angola,Regional, Iuna,Santa Maria, Idalina. O Sr. dança conforme a musica ou não existemais um jogo para cada toque ?

32- Professor é um educador, nesses tempos violentos ensinar crianças zum zum zum Capoeira mata um não é errado ?

33- Capoeira é no pé, no pau, na mão, é na ponta da faca, é no facão ! O Sr. concorda com isso ?

34- Dizem que na Angola ninguem bate em ninguem, é só Paz e Amor mas Pastinha usava uma foice no berimbau,os antigos usavam paus e navalhas e aqui um usa até revolver e ai ?

35-Tava lá no pé da cruz-Ieh viva meu Deus-santo Antonio é protetor-Valha- me Deus Senhor São Bento-Santa Maria mãe de Deus- Capoeira tem ou é religião ?

36-Alguns evangelicos acham a Capoeira Demoniaca e o Sr. ?

37- O Sr. coloca apelido no aluno ?

38- King-Kong- Macaco-Urubu- Abutre-Carvã o, pode haver processo por isso ?

39- O Sr. ja foi discriminado por ser Capoerista ?

40- O que o Sr. acha das acrobacias ?

41- A nivel de divulgação da Capoera a FEDERAÇÃO esta cumprindo o seu papel ?

42- Ja viram capoeirista jogando de patins ou com a corda amarrada na cabeça ou na perna. O Sr. ja viu algo assim na roda ?

43- Como o Sr. vê a crescente participação da mulher na Capoeira ?

44- Quais as dificuldades que elas encontram na Capoeira ?

45- Oque o Sr. acha da relação afetiva entre professores e alunas ?

46- Como esta a Capoeira neste Estado ?

47- O Sr. encontrou dificuldades no inicio do seu ensino ?

48- O Sr. tem apoio de alguem ?

49- Qual o momento mais marcante da sua vida na Capoeira ?

50- Qual é a sua FILOSOFIA de vida ?

51- Voçe é a mesma pessoa dentro e fora da Capoeira ?

52- A Capoeira contribui na sua personalidade e vida pessoal

53- Qual o rumo que a Capoeira deve seguir ?

54- Sou discipulo que aprendo,sou Mestre que dou lição ! na Capoeira tem mais professor que aluno ?

55- Capoeira ou Capoeirista tem diferença ?

56- Tem mensagem parao capoeirista ?

57- Mestre EXTRA-OFICIALMENTE é Mestre ou não é ? Se for para que EFETIVA-LO, ou ao efetiva-lo ele não se torna BI-MESTRE ?

58-Um Bispo mormon capoeirista não canta IEH VIVA MEU DEUS para não pronunciar o nome de Deus em vão mesmo ele se dizendo M... de Angola ! Essa PASTEURIZAÇÃO DA CAPOEIRA- mudança da cor da calça de Angola, tirar o atabaque, não cantar certas musicas para servir interresses pessoais É INEVITAVEL ou deveremos começar a nos MOBILIZAR CONTRA ISSO ?

59-É provavel que ja exista Grupo Evangelico de Capoeira fazendo Roda sem atabaque, cedo ou tarde sairá o Berimbau, e ai como é que fica.

Le blog de Sergio Leiteiro se trouve ici

Visitez-le absolument !

-Textos no Overmundo

 

Entrevistas sobre a vida do Mestre Gato Preto ( José Gabriel Goes).

Entrevistas feitas pelo Dorado Cajueiro ( Bernardo Tinoco) entre 1999 e 2001 para realisar o livro de suas memorias ! Quem quizer saber mais sobre este grande mestre " Berimbau de ouro da Bahia", pode ouvir agora atravez de sua propria voz. Sao mais de 6h de gravaçoes, que começam no Rio de janeiro, no morro do galo, aonde eu morava e se terminam em Sao Bras, Santo Amaro da Purificaçao Bahia. Muitas das filosofias e historias que eu aprendi com o mestre estao aqui, contadas por ele mesmo ! Agora vou compartilhar com todos as verdades sobre sua vida como ele contava ! vou botar cada parte de uma vez ! Para termos tempo de apreciar !!! Iê capoeira angola camara !!!

Segunda parte : Sobre a sua vivência e sobre os grandes mestres e capoeiras de sua época. Passei muito tempo para fazer estas entrevistas, me dediquei a este projeto de registro de suas historias. Um documento de muito valor que deve ser escutado com muita atençao e respeito, sem intençao de deturpar ou usurpar as palavras do Mestre. Escutar e aprender sao palavras importantes ! Humildade e respeito também ! E pra quem tem pressa de ouvir tudo deixo uma mensagem que Mestre Gato Preto sempre falou para todos que vinham perguntando e pedindo muito pra ele : " CAAALMAAA !"...

Essa Cantiga é bem comum em muitas rodas por aí. E o estranho é que cada um canta de uma forma. Maitá, Humaitá, MuayThai, Umaitá etc. O fato mesmo é que muitas músicas de Capoeira é fruto de acontecimentos verídicos do Brasil.

É impossível falar da Fortaleza de Humaitá sem comentar, da Guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai. Os 3 se uniram contra o Marechal Solano López, depois que ele quis invadir a província argentina de Entre Ríos, e o Brasil, em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul (1865-70).

Um dos objetivos desta guerra era o Paraguai conquistar e arrasar a fortaleza de Humaitá que impedia a livre navegação do Paraguai.

Conquista de Humaitá: Em 5 agosto 1868 por forças navais e terrestres brasileiras que resultaram em Anulação da capacidade defensiva estratégica do Paraguai.

O Brasil enviou mais de 100 mil negros escravos para esta Guerra e muitos deles não voltaram. A importância deste movimento também representou a oportunidade de liberdade e também de reconhecimento social. Muitos negros Capoeiras não eram voluntários e sim pressionados/forçados a guerrear. O exército brasileiro era tido como “Exército de Macacos.” Os senhores donos de terras eram forçados a “doar” seus escravos negros para as guerras.

Veja uma história interessante que ilustra bem este post e também a influência dos Capoeiras na Guerra do Paraguai, animação feita em escolas da rede pública de Uberlândia, em oficinas de animação realizadas por Luciano Ferreira:

En savoir plus : www.iecamara.com.br